Ele entrou no fogo por um filho que nem era dele.
Já eram cinco da tarde quando o telefone tocou. Uma casa pegava fogo no bairro.
A mãe era uma menina nova, tinha saído correndo comprar fralda e deixou o bebê de um ano dormindo no berço.
O Jeferson achou o berço no meio da fumaça, embrulhou o corpinho no próprio casaco de combate e entregou a criança viva à equipe.
Quando ele se preparou para sair, o teto desabou. Por dois minutos, ficou embaixo dos escombros em chamas.
Antes do fogo, a gente só esperava o nosso filho.
A gente estava esperando o nosso Davi nascer. Eu grávida em casa, ele no plantão.
O Jeferson é bombeiro porque gosta de chegar quando ninguém mais chega.
Debaixo dos escombros, ele me contou que só pediu uma coisa: "Deus, eu salvei o filho dela. Deixa eu conhecer o meu."
O Davi nasceu seis dias depois, de sete meses.
A médica disse que foi o estresse do susto. Ele veio antes da hora, pequenininho.
A primeira vez que o Davi viu o pai, o Jeferson estava com o corpo todo enfaixado por causa das queimaduras.
Meu marido dormia por causa dos remédios. Acordado, a dor é tão grande que o hospital inteiro ouve os gritos dele.
Setenta por cento do corpo dele está sem pele.
As queimaduras tomaram as costas, os braços e metade do rosto.
A médica avisou: cada dia sem o enxerto, a pele endurece e racha mais, e o risco de infecção aumenta.
A fila do SUS é de oito meses, e o Jeferson não tem esse tempo.